V
No dia seguinte Ulisses esperou Sofia em baixo de sua arvore, ela estava demorando a chegar, decidiu que desceria à cantina para ver se estava por ali, chegando à cantina percebeu que Sofia já estava na arvore, ela só tinha esperado ele descer, fizera aquilo para conseguir pegar o caderno de Ulisses, e conseguiu, mas quando abriu o caderno não conseguia passar da primeira pagina, era o desenho de sua casa, as cores e traços das janelas e portas, tudo estava perfeito. Sofia enfim descobriu o que de fato tinha no caderno, e que diferente de suas suspeitas, ele não rabiscava, Ulisses desenhava, e melhor do que qualquer pessoa que ela já tinha conhecido.
“Gostou?” perguntou Ulisses, e antes que Sofia tentasse responder “É seu!”.
“Posso ficar com esta?”
“Não.”
“Mas você disse que é meu!”
“Sim.”
“Então, por que não posso arrancar a folha?”
“O caderno...”
“O que tem?”
“É seu!”
Sofia demorou entender, não acreditava que o caderno que ela tanto quis ver agora lhe pertencia. Ao virar as paginas percebeu que ela estava em todos os outros desenhos, não soube o que dizer, lembrou do que Ulisses tinha dito dias antes, “então eu roubo a atenção dele?” pensou Sofia. Com um caderno Ulisses conquistou Sofia, sabemos que não foi o fato de ser um caderno, e sim o carinho a atenção. Dias depois Sofia o presenteou com um poema de sua autoria, era a primeira vez que escreviam algo para ele, ele decidiu fazer um desenho para o poema e mostrar a Sofia, que adorou a idéia, os dois fizeram um acordo, ela escreveria sempre para os seus desenhos e ele desenharia toda vez que ela escrevesse um poema, nem sempre funcionava, mas os dias iam passando e a amizade dos dois estava firmada.
Era ainda muito cedo quando Ulisses saiu de sua sala correu pelos corredores da escola ao encontro da sala de Sofia, ela já não estava, tinha ido para a arvore dos dois, sim agora a arvore pertencia aos dois, mas não por muito tempo, ela estava com um pequeno baú em mãos, tinha levado especialmente para Ulisses, ele não sabia, mas seria um dos últimos encontros deles embaixo daquela arvore.
Chegando à cantina Ulisses percebeu que Sofia já estava a sua espera, então ele correu feliz, por que segundos antes tivera pensado que ela não teria ido à escola aquele dia. Ofegante e sorridente, Ulisses começou o que seria o seu dialogo de adeus.
“Corri até sua sala e não a vi, pensei que não viria mais”
“Sim” Sofia respondeu de cabeça baixa.
“Como? Eu não escutei.”
“É pra você.” Entregando o baú a Ulisses.
“Obrigado! Ele é lindo” Não sabia o que tinha no baú, mas estava feliz por ter ganhado o presente.
“É! Eu preciso do seu CEP.”
“Por quê?”
“Eu pretendo escrever para você, de onde eu estiver...”.
“Mas você não me disse que ia se mudar. Acabou de chegar à cidade, não pode!” Ulisses ficou enfurecido com a idéia de perder a única amizade de fizera nos últimos anos dentro daquela escola triste, não que ele a achasse triste, mas é que nos últimos dias Sofia tivera completado a falta que ele sentia de um amigo.
“Bom, eu preciso ir agora. Dentro do baú, junto com os presentes tem o meu novo endereço, mande noticias e desenhos, eu prometo responder em poemas.” Sofia deu um beijo em seu rosto e partiu. Ulisses ainda ficou ali por algum tempo, recuperando-se abriu o baú e viu que dentro tinham pinceis de diversos tamanhos e dois estojos de tintas.
Passaram-se algumas semanas, Ulisses ainda não tivera mandado nenhum desenho para Sofia, estava preso em uma atmosfera de tristeza e melancolia, ele estava apaixonado por Sofia, decidiu então pintar, expor em uma tela todo o tormento e confusão de seus sentimentos. Ulisses terminou o quadro, era um casulo pendurado em um dos galhos da arvore que os dois ficavam. As folhas da arvore pareciam mais finas que o normal e tinham a cor púrpura, os galhos estavam curvos como uma mão atrofiada e seca, e no galho mais seco estava pendurado o casulo que era vermelho, ele achou maravilhoso e triste, era como se sentia de fato, então decidiu enviar para Sofia. Essa foi à única correspondência que ele enviou, e Sofia nunca respondeu a essa carta.
VI
Nove anos se passaram, Ulisses estava formado na escola de artes, ele tinha o respeito e atenção de todos os seus professores, era sem duvida o melhor pintor de madonas de toda a academia, ninguém entendia como ele conseguia expor aquela imagem a algo tão cruel, e sofrido, como corpos secos rachados ou crianças definhando em seu colo, realmente havia se tornado um artista excepcional, excêntrico e incompreendido por todos. Sofia se formou em jornalismo e decidiu voltar para a capital para tentar um emprego no jornal da cidade, tinha o objetivo de algum dia escrever crônicas, paixão que adquiriu durante o curso, ela adorava a precisão nos detalhes e as sátiras cortantes e secas que escorriam de sua mente para o papel, queria ter sua própria coluna, também gostaria de rever Ulisses e conversar sobre o seu único desenho e o porquê de não o ter respondido, era o seu principal motivo de estar na cidade.
Decidida a arrumar o emprego, começou imediatamente à entrega de currículos, passou o dia inteiro rodando a cidade, que por sinal havia mudado muito, parou em um café, onde viu ao olhar para o outro lado da rua, uma galeria de arte, a exposição do mês era as polemicas madonas de Ulisses, era o seu projeto de conclusão do curso, expor suas madonas e documentar as impressões do seu publico, que não compreendia a sua obra assim como seus professores. Sofia decidiu entrar, procurou por Ulisses, mas ele não estava, perguntou aos orientadores que lhe informaram que ele morava próximo a galeria e passava as tardes desenhando no mesmo lugar de sempre, no pátio de sua ultima escola, ela lembrou da escola e da arvore, então foi até lá, Ulisses estava observando o pátio quando viu uma moça com traços familiares, poderia ser Sofia? Pensou Ulisses, logo depois ouviu: “Ulisses? É você?”.
“Quem é você?” respondeu Ulisses.
“Sofia, eu estou na cidade e pra ficar, nós precisamos conversar!”
“Eu esperei por esse dia há anos”
“Já terminou?”
“Sim” Ulisses pegou o Quadro que estava pintando e o rasgou em pedaços.
“Por que fez isso?”
“Costume! Faço isso todos os dias”.
“Mas são lindos!” Diferente de suas madonas, os quadros jogados no chão traziam tranqüilidade, não tinha nada de agressivo.
“Vamos?” Ulisses perguntou docemente.
“Sim” Os dois saíram, foram a um bar, conversaram sobre suas experiências na universidade, sobre os projetos, sobre os anos que passaram. Sofia tirou de sua bolsa um envelope, e tirou de dentro dele o desenho de Ulisses “Desde quando desenha assim?” Perguntou Sofia.
“Você não entende, não é?”
“É muito cruel, me passa sofrimento, dor, embora o casulo pareça estar muito vivo em meio a tanto caos e dor”.
“Sim, é o caos, a dor, a paixão é assim, principalmente quando se esta só e não tem como estar próxima de quem se ama”.
“Antes eu também pensava que fossemos apenas amigos”
“E fomos!”
“Eu sei!”
“Descobrimos tarde demais”
“Eu não vou embora de novo!”
“Eu vou dessa vez, eu parto no domingo para a França.”
“Faltam tem três dias, ainda é quinta. Você tem alguém?”
“Não, ninguém! Eu vou para estudar, e não sei se volto”.
“Entendo, pelo jeito não ia dar certo mesmo”.
“É, uma pena”.
“Sim, uma pena”. Ulisses se levantou, deixou o endereço de sua casa, e saiu pela porta. Sofia correu atrás de Ulisses e pediu para eles darem a ultima volta juntos, tomarem um vinho, e quem sabe conversarem um pouco mais, embora o reencontro tivesse cara de despedida ela não queria ter essa referencia em sua memória, ela tentou o convencer de ficar, mas ele já estava de passagens compras. Eles deram algumas voltas pela cidade, ela conheceu os lugares onde Ulisses costumava passar o tempo, depois de algumas bebidas os dois decidiram ir até a casa de Ulisses, ele usava a casa como estúdio, muitas modelos iam até sua casa, ele tinha diversas pinturas delas, Sofia ficou com ciúme do privilegio das outras e decidiu pousar para Ulisses, e queria que ele ficasse com o quadro como prova de “amizade”, ele degustou cada curva de seu corpo, quando terminou a pintura Sofia pediu para ver, ela estava emocionada e ele muito feliz, pois sem duvida, não sentia tanto prazer pintando há muito tempo, os dois se abraçaram, ela ainda estava nua, naquela noite eles dormiram juntos.
Continua...
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