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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Des-en-cadeando.

I

Bom, essa estória começa numa tarde de sábado. Nosso protagonista, não é e nem nunca foi um “bom moço”. Pelo contrario, gosta de se aventurar, arriscar as coisas, tem convicção de que o errado seria parar e ver que se arrepende de não ter feito ou tentado, essa é a sua atual visão, mas nem sempre foi assim, houve um tempo em sua vida que esteve apático, talvez por isso hoje arrisque tudo sem medos vãos.
Ele estava em casa, era aproximadamente 14h45min, quando num impulso aparentemente mecânico, ele levanta de sua cama, corre para a janela da frente de seu quarto, e a abre. Antes de terminar o gesto de abrir, percebeu na rua algo de familiar entre as pessoas que passavam. Não demorou em perceber que se tratava da nossa segunda personagem. Seu nome? Sofia. Estava estático, anestesiado, seus olhos a seguiam por todo o percurso da rua, isso por que ela não é tão longa, tem aproximadamente trinta metros. Sofia procurou a janela do nosso personagem no metro vinte e nove, olhou para traz e antes de fazer a curva sorriu, mas com o cenho triste.
Ulisses não entendeu o porquê do ar triste, será que tinha feito algo errado? Ele apenas a observava nada demais, não encontrava respostas para as dezenas de coisas que se perguntou durante alguns segundos. Então sentiu um toque quente em seu ombro esquerdo, eram os lábios da nossa terceira personagem. Ele não se lembrava de ter alguém em seu quarto, nem da noite anterior. Horas depois talvez conseguisse resgatar alguns flash’s na memória – Volta pra cama – disse ela e continuando – É sábado e esta frio, vem!.
A resposta de sua pergunta ou para o cenho triste de Sofia, veio em forma de um beijo, mas a personagem três não se chama Judas, nem traiu ninguém, nessa estória não existiram traições, talvez haja desentendimentos, mas não traições, pelo menos até este momento.


II

Todo sábado pela manha Sofia se arrumava com as melhores roupas que tinha e ia passear no centro da cidade vizinha, o centro lhe trazia boas lembranças. Ela adquiriu esse costume com Ulisses, que adorava passear e observar a forma estranha de andar das pessoas, os calçados e a forma que estavam gastos, as formas que tomavam devido ao jeito que pisavam. Também observava os que não tinha calçados. Esses por que geralmente tinha uma relação um pouco diferente com o solo e com as outras pessoas, não por estar descalços, mas por não estar de acordo com o que estava estabelecido como “correto” entre os que andavam calçados, mas os descalços não ligavam e andavam tranquilamente por ali, livres da opressão dos sapatos apertados. Ulisses ao observar aquilo sentia vontade de lançar as sandálias ao espaço e sentir os pés nus, virgens a serem molestados pelo chão.
Sofia sempre o reprimira por isso, vinha de uma família de origem tradicional, estudou em colégio interno durante toda a infância, ausentando-se de aventuras, e de pequenas liberdades como a de andar descalça – Imagine se você pega um resfriado ou algum verme. O chão tem impurezas e as doenças entram pelos pés – dizia a Madre do internato. Sempre levava tudo muito a serio, devido às represálias e possíveis punições para as ações indevidas.
Aos 13 anos Sofia dava adeus para o internato e ia estudar em uma escola com meninos e meninas, estava feliz, imaginava que seria uma experiência maravilhosa. Nas primeiras semanas percebeu que apenas ela a alguns poucos alunos usavam os uniformes, também reparava a tinta no cabelo das outras meninas de sua idade e um garoto que ficava todos os dias no mesmo lugar observando os outros alunos andando pelos corredores, jogando bola ou até mesmo comendo. Seria ele um fiscal – se questionava – Não, ele é novo demais.
O garoto passava grande parte do intervalo no lugar de sempre. Sofia percebeu que ele tinha um caderno e que às vezes abdicava da condição de voyeur e contemplava a sua atenção e tempo ao papel, daquela distancia ela não sabia se ele estava desenhando ou se escrevia, durante semanas ele repetira o mesmo ritual, ela o observava enquanto ele observava as outras pessoas. Sofia já não agüentava mais de curiosidade e decidiu que iria descobrir o nome do menino, o conteúdo do caderno, e se tinha amigos, até então ela não tinha feito nenhuma amizade, tinha passado todos os recreios ocupada demais observando o menino.

Continua...

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